Essa poesia é de 1991,
mas eu prometo que os próximos posts
serão mais recentes.
É que eu tinha prometido que essa seria a primeira!
Poesia - Vício - Jason C. Schmidt - 20/07/91
O homem é inteiro, criado inteiro e ainda não teme,
escorado, vive sob vícios para não cair;
no entanto assim já o vejo derrubado;
pois é inútil desperdiçar sua retorcida inteligência
em subterfúgios e requintes aos olhos do imparcial;
se verá vício, se verá fulgor de outrora
em decadência agora
e em ritmo indecente.
Sem vergonha de si,
o ego é o único exigente,
o único dependente,
único lesado e mais mascarado,
pois os restos vão às moscas;
o refugo era o homem inteiro,
construção perfeita agora casa condenada,
beira a morte e estampa o orgulho,
brinca à sorte de tentar de novo
arremessar seu eu todo carcomido
ao inferno-paraíso onde não lhe é permitido.
Cada vez vai rastejar mais,
até que o verme lhe pareça Deus,
até que todos os valores humanos sejam dinheiro,
até que fechem a tampa do poço e ele não saia mais.
O vício impõe-lhe que precisa do desnecessário,
e vai ser feliz se morrer do outro lado,
e do outro lado não há mais ninguém,
só ecoam perdidos os gritos de desespero, de pânico,
e os nãos que saíram tarde demais.
Estes não têm mais consolo,
já não se embriagam nas noites de jogatina,
não viajam mais nas rodas de heroína,
não cheiram cocaína e amaldiçoam a nicotina
que os minguaram a restos mortais.
Eles querem voltar com a menor vontade do mundo;
tão pequena que cabe totalmente dentro de suas cabeças,
nas quais encerram gigantescos vazios interiores,
grandes o suficiente para isolá-los, em última conseqüência,
do amor do próximo e até de si mesmos;
são entes ao esmo catando vida...
e vida viva nunca encontrarão no fundo duma garrafa,
na ponta duma seringa ou na última tragada.
Mas são almas tristes no âmago,
que imploram inertes, sem força de vontade,
para que se lhe quebrem os cabrestos de vidro,
que a droga já os fez espelhos,
para que vissem a desgraça de si mesmos e,
como única alternativa, pedissem mais.
O pior caminho até a morte,
fornecerá viagens indescritíveis,
esconderá seus temores horríveis,
fará tudo o que você quiser,
mas é um destino mesquinho,
onde você não enfrenta nada sozinho,
joga fora dinheiro, trabalho, amor e carinho,
e até o que não tiver,
para assinar o documento
lhe conferindo o direito de negar,
mesmo que tenha aceitado,
a humilhação e o sofrimento
de dizer que é um viciado.
Há 13 anos
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